Os povos indígenas têm uma conexão milenar com o céu, usando os astros como guias para organizar atividades, construir calendários e compreender ciclos naturais. A relação entre essas culturas e a astronomia é tão rica que deu origem à etnoastronomia, área de estudo que explora como diferentes sociedades interpretam o céu e o utilizam no dia a dia.
Entre os Tupinambás, antigos habitantes do litoral brasileiro, o conhecimento astronômico estava ligado tanto à prática quanto ao mito. Eles identificavam constelações como a do Homem Velho, associando-a a narrativas de transformação e perpetuação no cosmos. Essa constelação, visível em dezembro, marcava o início do período de chuvas no norte do país, influenciando práticas de caça e agricultura.
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Para os indígenas, o céu reflete a Terra, e as constelações representam fenômenos naturais, animais e até figuras mitológicas. O Colibri, por exemplo, não é apenas um guia sazonal, mas simboliza Nhanderu, o deus criador na mitologia tupi-guarani. As estrelas formam a ave que leva néctar ao criador, mostrando a interligação entre o céu, a terra e a espiritualidade.
Germano Bruno Afonso, físico e pesquisador com raízes guaranis, é uma figura central na preservação e divulgação da astronomia indígena brasileira. Formado em Física e doutor em Astronomia, ele se dedicou a estudar os saberes ancestrais e a relacioná-los com a ciência moderna.
Durante sua trajetória, Germano viveu anos entre comunidades indígenas, aprendendo diretamente com pajés e resgatando histórias e práticas. Ele promoveu a construção de observatórios solares em aldeias e publicou estudos sobre como os mitos tupi-guaranis estão conectados às estações do ano.
“Para o indígena, o céu explica tudo: a origem do Universo, a criação do ser humano e nossa relação com o meio ambiente”, afirmou Germano em uma entrevista, destacando o valor cultural e científico desse saber.
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Os povos indígenas veem no céu um espelho da vida na Terra. Constelações como Órion, Escorpião e Cisne não são apenas referências astronômicas, mas parte de uma herança cultural que molda a percepção do tempo, das estações e das relações humanas com a natureza. Esse olhar ancestral continua a inspirar estudiosos e a lembrar o mundo de que ciência e cultura podem caminhar juntas na leitura dos céus.